“Viver sem conhecer o passado é andar no escuro.”
As animações mais autorais e profundas, no Brasil, dificilmente chegam ao grande circuito. Normalmente, esse material fica limitado a festivais nacionais ou internacionais, em parte por questões do próprio mercado, outras por falta de conhecimento do público. Por isso, ver algo como “Uma História de Amor e Fúria” nas telonas é uma vitória.
Um guerreiro Tupinambá (dublagem de Selton Mello), frente à colonização portuguesa, é escolhido pelos deuses para derrotar o mal que ameaça seu povo e o mundo. Ele se torna imortal e, com a morte de sua amada Janaína (voz de Camila Pitanga), passa os anos a procurar suas reencarnações. A cada vez que a encontra, com uma nova identidade, o guerreiro se vê no centro de um conflito da história do Brasil – depois da colonização, passa pela Balaiada, na época da escravidão, depois pela Ditadura Militar, o crime no Rio dos anos 1980, até finalmente o futuro do Rio de Janeiro, em 2096, onde um grupo terrorista luta pela liberação da água, cuja posse é controlada pelo governo e por grandes corporações.
Nós estamos acostumados a ver um lado da história e, caindo na velha frase-feita, esse é sempre o lado dos vencedores. “Uma História de Amor e Fúria” tem um protagonista que vai no lado oposto da correnteza, tentando colocar ordem no mundo ao vencer as forças dominantes. Primeiro, como Tupinambá, ele vai contra a tribo. As lutas seguintes são contra o governo, de modos diferentes, mas o princípio é o mesmo – o lado justo, bom, porém mais fraco, contra a injustiça e o mal dos dominantes.

A visão do filme fala de motivações dos revoltosos e mostra as injustiças perpetradas contra eles, com direito a certo revisionismo histórico para certos detalhes e pessoas, mas, em linhas gerais, temos muitas informações verídicas, que ajudam a dar um colorido interessante que a história do Brasil dificilmente tem em produções do tipo.
Vemos como figuras históricas que conhecemos como grandes homens não passaram de vilões e os que são tratados pelos livros como vilões eram os verdadeiros heróis. O próprio protagonista afirma, em certo momento “meus heróis não viraram estátua” (a frase, aliás, virou o título de um livro de companhia para a produção, pela Editora Ática).
Não dá pra negar que o roteiro é maniqueísta, especialmente quando vários conflitos tiveram diferentes motivações e personagens para ambos os lados que dificilmente poderiam ser resumidos em “heróis” e “vilões”. De certo modo, o protagonista não deixa de fazer o que a história fez com seu lado – colocar os antagonistas como o “mal absoluto”.
Ainda assim, a visão do lado oposto foi bem executada e até os mais certinhos podem ter dificuldade de negar que ele tem um ponto muito bom sobre a repetição de erros na história. Outra das máximas do protagonista, esta repetida várias vezes, é “Viver sem conhecer o passado é andar no escuro.” A cada parte do filme (são 4 encarnações do herói, contando a original e sendo que a terceira parte engloba tanto a Ditadura quanto o crime dos anos 1980) vemos que, de certo ponto de vista, chega a ser difícil de negar a legitimidade até de atos criminosos feitos pelos heróis.

Sempre misturando-se ao lado ideológico e histórico está o romance. Janaína e o herói, cujo nome varia a cada encarnação, fazem um belo casal, ainda que os sentimentos sejam explorados de maneira razoavelmente simples (mas que funciona), caracterizados pela eterna busca do herói (afinal, ele vive por 600 anos e está sempre procurando a moça). Aqui, a dublagem dos protagonistas ajuda muito. Selton Mello faz um bom trabalho, ainda que não fuja de sua voz e tom tradicional, tanto como personagem quanto como narrador. Camila Pitanga, por outro lado, se destaca com uma profundidade emocional maior e, convenhamos, o rosto de sua personagem combina bem mais com a voz.
Rodrigo Santoro é creditado como dublador do cacique da aldeia, que vemos logo ao início do filme, e de um dos revolucionários durante a Ditadura Militar. A performance não chama a atenção, mas não é ruim. Na verdade, a única grande reclamação para dublagens fica para personagens secundários, com algumas falas que soam forçadas, sem naturalidade, em especial no segundo segmento.
O estilo de animação aqui é bem incomum: A produção mistura uma série de estilos e técnicas, utilizando computação gráfica, fotos e diferentes materiais para criar os cenários e personagens com certo estilo de histórias em quadrinhos. O movimento e as falas de pessoas por vezes são consideravelmente robóticos, o que causa um estranhamento grande no começo, mas conforme a trama evolui, além de nos acostumarmos, o maior uso de recursos visuais se alia à técnica básica e a experiência melhora muito.

Na hora da ação, seja em perseguições, pancadarias, tiroteios, o uso da mistura de técnicas garante momentos impressionantes, em especial com ângulos de câmera e recursos narrativos visuais diferenciados, como as bizarras visões proféticas que o herói tem em diversos momentos e suas transformações em um pássaro vermelho. Em momentos assim, aliás, a trilha sonora bem brasileira, com ou sem voz, funciona muito bem para criar clima e ritmo.
Do mesmo modo que muitos correm de um livro de História do Brasil, é certo que o lado histórico da animação vai desanimar alguns. Ainda assim, seja você interessado ou não no que o passado tem a dizer, a obra vale o ingresso pela ousadia de formatos, bom enredo e boas escolhas. E convenhamos? Já chegou a hora de mais animações brasileiras do tipo saírem no grande circuito, então ajudar no sucesso de produções como essa é um grande incentivo para esse mercado crescente.

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