Navegar é preciso, sobreviver também é preciso.
Quando falamos de piratas, sempre pensamos em “Ilha do Tesouro”, “Piratas do Caribe”, garrafas de rum, tudo parte de um passado distante. Outros tempos de vilões e heróis aventureiros.
Hoje, os piratas são os hackers, certo? Não é bem assim. Em locais como a costa da Somália, a atividade de piratas ainda é constante. Um dos casos recentes chamou atenção, e nos lembra que ainda há muita aventura e luta pela sobrevivência acontecendo pelo mundo.
Em 2009, o Capitão Richard Phillips (Tom Hanks) foi escalado para comandar o navio mercante Maersk Alabama, transportando toneladas de produtos, alimentos e água por uma rota perigosa em torno da região do Chifre da África. O navio é abordado por um grupo de piratas liderado por Abduwali Muse (Barkhad Abdi), mas após uma tentativa frustrada de tomar o controle, o grupo foge em uma baleeira (tipo de bote salva-vidas), levando Phillips como um refém para negociar um pagamento de resgate. Dentro dessa situação, Phillips tenta sobreviver às tensões e adversidades, enquanto seus sequestradores passam a lidar diretamente com o envolvimento direto da marinha norte-americana.
“Capitão Phillips” (“Captain Phillips”) é um caso real. Em 2009, o sequestro do Maersk Alabama chamou a atenção da mídia, e após seu fim, o caso foi registrado no livro de 2010 de Richard Phillips e Stephen Talty, “A Captain’s Duty: Somali Pirates, Navy SEALs and Dangerous Days at Sea” (“Dever de Capitão”, edição brasileira pela Ed. Intrínseca.)
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Histórias reais sempre são interessantes, porque enquanto os filmes de ficção nos mostram a cada lançamento atos heróicos, são as histórias reais que nos certificam que essas coisas de fato existem, e que elas não tem ensaio, dublês ou efeitos especiais. Por mais que seja Tom Hanks ali, sabemos que o Phillips real realmente foi sequestrado e sofreu nas mãos dos piratas.
Phillips é um herói no sentido mais real possível. Ele é uma pessoa que sobreviveu à adversidade, e ainda que muito disso dependa de sua sagacidade e competência, não há nada de sobre-humano. Ele não é o herói que entra em tiroteios, que sabe lutar e que domina todos seus adversários. Depois de trabalhar a eficiência de Bourne em “A Supremacia Bourne” (2004) e “O Ultimato Bourne” (2007), o diretor Paul Greengrass mostra que nem todos heróis precisam ser especialistas. Phillips tenta fazer o máximo para garantir a segurança de sua tripulação e a própria, negociando, dialogando e, quando possível, enganando os piratas.
Muse e seus companheiros também funcionam dentro dessa regra – mais do que vilões, eles são antagonistas. O filme faz questão de nos mostrar seus próprios conflitos, suas realidades, regras e dificuldades. Apesar dos ânimos exaltados, sabemos sempre que fazem aquilo por não terem opções – ou, pelo menos, não verem outras opções para viver – e isso torna a experiência muito mais interessante. Ao mesmo tempo que queremos Phillips livre e bem, é difícil não se envolver ao menos um pouco com o grupo de piratas.
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É claro que aqui entra também um poder de atuação excelente de Tom Hanks e companhia. O astro é de longe o mais impressionante, criando um capitão real, explorando toda uma gama de sentimentos e expressões conforme sua confiança vai sendo quebrada com a evolução da trama. A perda do controle está presente desde a invasão do barco, mas os principais momentos para Hanks ficam durante o sequestro, seja nas suas tentativas frustradas de negociar, até seu desespero nos momentos que deixa de ver uma saída.
Uma grande surpresa fica nos atores que encarnam o grupo de piratas somalis, em especial Barkhad Abdi, como Muse. O grupo não tinha qualquer experiência anterior em atuação, mas conseguiram um envolvimento e uma química que vários hollywoodianos experientes penam para ter. Abdi rouba a cena com um personagem complexo, que tem as melhores interações com Hanks – as conversas de capitão para capitão e todas as tentativas de negociação deixam a platéia tensa.
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Todos os problemas são bem reais, também: não falta terminologia nautica a cada manobra do barco ou a cada movimento da marinha, depois da segunda metade do filme, e os principais problemas, mais do que armas ou personalidades, são o vento, as ondas, o calor e até mesmo quesitos técnicos das embarcações.
Ainda que saibamos que se trata de uma história real e que tudo terminou bem, a construção detalhista do filme nos faz esquecer disso e nos vemos absorvidos pelo suspense de cada cena. A câmera irregular de Greengrass aproveita tanto o desconforto do mar aberto quanto a claustrofobia do navio e do baleeiro.
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Tendo isso em mente, vale lembrar que o filme passa de duas horas de exibição, o que, acompanhado da carga de tensão constante e do número de detalhes, pode cansar alguns espectadores mais acostumados com velocidade. Se não tiver problemas com isso, vá pronto(a) para ver o que muitos já afirmam que pode ser o próximo Oscar de Tom Hanks.