Sua segurança vale vidas inocentes?
A segurança é há muito uma preocupação constante em nossas vidas. Especialmente para os que vivem em grandes cidades, onde a violência é uma realidade mais próxima, há uma paranóia e medo constante, e não faltam ideias para soluções.
Quando começam as discussões sobre penas por crimes, não demora para que alguém siga na lógica do “bandido bom é bandido morto”. Outros tantos, mesmo que só na teoria, vêem na matança uma solução para políticos corruptos ou desafetos.
“Uma Noite de Crime” (“The Purge”) trata exatamente de um mundo em que essa filosofia é seguida à risca: imagine uma noite em que qualquer crime pode ser realizado, até mesmo o homicídio, e você pudesse “livrar” o mundo de seja lá quem quisesse. O que você faria?
“Uma Noite de Crime” se passa em um futuro próximo, nos Estados Unidos. Aqui, o governo estabeleceu um dia, todos os anos, em que por um período de 12 horas todo o crime é liberado: a “Noite do Crime”, ou “Purge”, no original. Todos serviços de emergência deixam de funcionar – sejam os paramédicos, a polícia ou os bombeiros – e todos os habitantes podem soltar toda sua violência e ódio uns contra os outros.
Os meios de comunicação cantam aos quatro ventos os benefícios do programa: os menores índices de violência e crime o ano inteiro, e uma sociedade mais rica e estável, com desemprego de apenas 1% – apesar de detratores apontarem que muito disso seria porque o “Purge” afetaria muito mais os pobres e frágeis, que não teriam condições de se defender. Mas todos já estão acostumados demais e pouco se questiona a esse respeito.
James Sandin (Ethan Hawke), por exemplo, não faz muitas perguntas. Seu trabalho como vendedor de sistemas de segurança especiais para a “Noite do Crime” para famílias ricas dos subúrbios tem lhe rendido uma vida bem-sucedida. Sua vida familiar não é das melhores – os filhos Charlie (Max Burkholder) e Zoey (Adelaide Kane) estão distantes do pai, e a esposa Mary (Lena Headey) está frustrada com a vida suburbana – mas ele está otimista. É quando começa mais uma “Noite do Crime” e todos se trancam em casa que as coisas saem rapidamente do controle.
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Charlie dá abrigo a um sem-teto ferido (Edwin Hodge) e um grupo de jovens mascarados, liderados por um rapaz sorridente e fortemente armado (Rhys Wakefield) logo se aproxima da casa com uma proposta para James: ou entregam o homem a eles com vida, ou eles invadem a casa para matá-lo… e a toda a família Sandin. Eles cortam a energia do lugar, deixando os Sandins no escuro com um estranho e com a difícil decisão.
O principal mérito de “Uma Noite de Crime” é trabalhar uma premissa aparentemente absurda – afinal, quem aceitaria uma noite de crimes livres? – e torná-la incomodamente plausível.
É terrível e assustador ver como o diretor e roteirista James DeMonaco conseguiu integrar o conceito da “Noite de Crime” de maneira funcional dentro da sociedade norte-americana. Ela passa a ser parte do patriotismo em um nível doentio, repetidamente pregada pelos meios de comunicação como uma benção criada pelos “Novos Pais Fundadores” – os criadores do “Purge” passam a ser comparados com os antigos líderes do país. A certa altura, eles são tratados com um rigor quase religioso, por permitirem a “purificação” da população.
Na mesma crítica implícita fica o momento em que, dentre tantas gravações de rádio e televisão que o filme nos mostra, ouvimos a voz de um pai falando que seus dois filhos morreram na “Noite do Crime”. Para ele, em suas palavras, os EUA tiraram tudo de bom de sua vida. Não precisamos ir muito longe nessa fala para notarmos os paralelos com a cultura de guerra, aqui.
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O filme nos situa por um fim de dia típico de James, acompanhado de uma transmissão de um programa de rádio popular, e depois da televisão. Facilmente passamos aceitar que a regra, ainda que dura, já é parte dessa realidade. Quando finalmente começam os reais questionamentos morais – entregar a vida de um homem inocente em troca da própria – que o filme nos coloca em uma posição difícil.
Por um instante (e as reações da platéia podem deixar isso bem claro), fica fácil demais aceitar que alguém irá morrer só porque outra pessoa acha que isso é certo. Fica fácil aceitarmos negociar com terroristas por não querermos enfrentar a alternativa.
Nos vemos concordando com ideias ruins, deixando de questionar, até que os próprios personagens questionam. Em uma fala marcante, James assegura os filhos de que tudo ficará bem depois dessa noite, e eles lhe lembram que, se fizer essa decisão, nada ficará bem. Nunca mais.
Outros detalhes cutucam bem a ferida, especialmente quando os vilões deixam claro de que não são bandidos ou assassinos, mas jovens ricos, de famílias poderosas, que vêem a matança como uma diversão, justificada por noções de um tipo de limpeza social. A crítica fica na noção que a ideia de “cidadãos de bem” é bem distante de qualquer noção de classe social ou histórico criminoso. Conforme a trama avança, essa tese só é confirmada com outros aspectos, mas vou evitar os spoilers.
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Apesar do ótimo pano de fundo, o roteiro em si é bem previsível: vários elementos são introduzidos de maneira óbvias, e ao vê-los uma vez sabemos que serão referenciados mais tarde na trama. Algumas montagens de tensões futuras seguem fórmulas batidas e as reviravoltas não são exatamente inesperadas.
A produção envolve nomes relacionados a diversas produções de horror e suspense, encabeçados por Jason Blum (também produtor de “Atividade Paranormal”, 2007, e “Sobrenatural”, 2010), nos preparando já na divulgação para o que está por vir na tela. Mas talvez por isso mesmo as expectativas fiquem um pouco altas demais.
Existe bastante tensão, vários sustos e uma pressão paranóica constante, seja pela presença dos estranhos armados do lado de fora da casa ou do sem-teto escondido na escuridão da casa. Mas por outro lado, com toda essa montagem e situações interessantes, o filme peca consideravelmente na área que mais parecia prometer. Há muito mais terror psicológico que poderia ter sido gerado com mudanças pequenas de roteiro, e os sustos, no geral, acabam sendo previsíveis e fracos.
A violência é exagerada, com execuções com armas pesadas ou diversos tiros de uma vez só, mas ao mesmo tempo consegue se manter numa linha graficamente pouco violenta. No geral, só vendo para entender, mas o fato é que temos todo o impacto dos atos de violência – muitas vezes impressionantes, aliás, com algumas das cenas que mais tiram reações da platéia -, mas não espere ver detalhes de feridas e sangue.
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Do elenco, Ethan Hawke e companhia cumprem seus papéis, mas a atuação mais forte fica para Rhys Wakefield, que encarna o líder dos “purgadores” de maneira assustadora. Seu personagem é carismático e ao mesmo tempo odioso, convencido de um tipo de superioridade que tem por direito sobre outras pessoas. Essa personalidade psicopata o torna um personagem interessante, do tipo que por mais que esteja ameaçando a vida de inocentes durante toda a trama, nos dá vontade de acompanharmos por mais tempo – novamente, nos colocando em uma posição difícil na hora de rever valores e conceitos.
“Uma Noite de Crime” ganha mais pontos pelo universo que cria e pelas críticas implícitas e explícitas do que pela violência e tensão que propõe. De todo modo, é uma experiência diferente, que vai interessar aqueles que não se incomodarem com o conteúdo controverso.