“O Cavaleiro Solitário” tinha consigo uma equipe que poderia literalmente entregar um sucesso como “Piratas do Caribe – A Maldição da Pérola Negra“, pois foi a mesma produção, os mesmos roteiristas, o mesmo diretor, e até o mesmo ator que fizeram do “Pérola Negra” um dos melhores filmes da franquia de Jack Sparrow, mas infelizmente nesse caso um raio não caiu duas vezes no mesmo lugar e a história de Tonto e o Cavaleiro Solitário não entregou um resultado satisfatório, tanto para os fãs de blockbusters, como para o seu estúdio.
Avisando que esse post contém algum spoiler, okay, vários spoilers, mas se eu fosse você, eu leria, porque o texto está dahora. Não vamos ouvir o Martin Freeman, nem sempre o Bilbo está certo.
Talvez considerando que desde sempre a relação dos indios americanos com o resto dos Estados Unidos tenha sido sempre tensa e nunca resolvida, esse foi um tema difícil de se tratar. Não dá para saber se a Disney queria passar uma mensagem sobre essa situação e conscientizar sua audiência sobre uma pauta que é tão polêmica quanto mamilos, ou se estavam querendo contar um filme sério sobre a época do “Velho Oeste”, e estava tentando colocar os “índios selvagens” sob outra perspectiva, ou se eles preferiram fazer uma comédia leve para toda a família. Meu palpite é que eles foram com todas as opções anteriores e erraram feio na mistura.
Acho que antes de começar – ah sim, estou apenas esquentando – seria bom apresentar o filme. Começamos em São Francisco, em 1933 com um garoto fantasiado de Cavaleiro Solitário, com máscara e arma de festim na mão visitando uma exposição itinerante sobre o “Oeste Selvagem”. O garoto durante sua “exploração” encontra um índio Comanche exposto como um manequim, somente com a legenda “O Nobre Selvagem”.
O filme, por mais que negue a si mesmo momentos tristes, nesse início nos dá uma das cenas que mais quebram o coração. Quando Tonto sai de sua posição de “enfeite” e se mexe, o primeiro instinto do garoto é atirar no senhor indefeso com sua arma de brinquedo. Me chame de chata, mas para mim isso ilustra muito bem a posição em que os indios americanos foram postos não só por Hollywood, mas pelos Estados Unidos inteiro como um povo. Servindo somente como alegoria de um passado distante, selvagens que não sabiam se portar num mundo civilizado extintos. Cadê o pessoal pintando com as cores do vento, igual a Pocahontas ensinou nos anos 90?
Como foi dito antes, temos Tonto, um índio Comanche. Ele está atrás de vingança, pois Wendigo -espírito do mal- dizimou sua tribo. Temos o bonitão Armie Hammer (A Rede Social) fazendo John Reid, (que se tornará o Cavaleiro Solitário) o bom moço ingenuo sulista, que acha que a lei sempre vence e temos que tomar nosso leitinho toda a manhã.
O filme após a cena inicial entre o garoto fantasiado e um Tonto idoso, é cortada para uma sequência de ação, uma de várias do filme,cheia de exposições de personagens, com um fugitivo perigoso sendo resgatado por bandidos em um trem.
O filme após a cena inicial entre o garoto fantasiado e um Tonto idoso, é cortada para uma sequência de ação, uma de várias do filme,cheia de exposições de personagens, com um fugitivo perigoso sendo resgatado por bandidos em um trem.
Descobrimos que Reid é um homem da lei, voltando para sua casa após viver anos estudando Direito na metrópole. Ele espera aplicar seus conhecimentos adquiridos visando o bem de sua cidade natal. Também descobrimos que o amor de sua vida casou-se e teve um filho com seu irmão mais velho Dan, o “badass” da família que é o xerife local, respeitado por todos. Também descobrimos que Dan é um pai/marido ausente e que enquanto ele está lá mantendo sua cidade a salvo, temos um almofadinhas cobiçando sua família.
E após isso entramos em mais uma cena de ação, seguida por uma emboscada e BAM! Dan morre e John é tido como morto. Após um tempo abandonado no deserto, Reid é resgatado por Silver, um cavalo branco que os comanches acreditam ser uma criatura espiritual, com a tarefa de levar os espíritos do plano terreno para o plano espiritual. O animal tem uma discussão mental com Tonto sobre Reid realmente ser um guerreiro destemido que irá ajudar o Comanche a finalmente conseguir justiça a seu povo. Sim, isso realmente acontece no filme.
Com a maturidade emocional de Chandler Bing, toda vez que o filme chegava em um momento minimamente tocante em que dava para se conectar com a trama, esse momento era destruído com algo completamente absurdo como o cavalo que salvou Reid aparecer em cima de uma árvore, porque né, vamos focar no cavalo esquisito que sobe numa árvore ao invés de ficarmos tristes pela tribo de Tonto que acabou de ser dizimada OUTRA VEZ! Sim, porque uma vez só não era o suficiente.
Tenho a impressão de que após de “Piratas do Caribe”, Johnny Depp amou tanto seu personagem que só consegue interpretar versões diferentes de Jack Sparrow, em “O Cavaleiro Solitário” temos um Capitão Jack versão indio do Velho Oeste.
Se a desculpa ao contratar o ator para interpretar Tonto foi por sua não comprovada, mas talvez verídica descendência Cherokee, afinal, né, é tudo índio, porque não contratar Gil Birmiham, mais conhecido como pai de Jacob Black em “Crepúsculo” que também estava no filme e é parte Comanche? Johnny não mostrou seu talento nesse filme e infelizmente pela maior parte do longa o que eu encontrei foi um personagem que poderia ter sido bom, mas foi tão raso que em época de enchente encontro possas mais profundas do que o Tonto que Depp nos proporcionou.
Mas como nem tudo é tragédia, temos de mencionar que um dos melhores papéis desse filme ficou nas mãos de Helena Bonham Carter, que se aparece meia dúzia de vezes no filme, é muito. Interpretando uma dona de um clube para cavalheiros, ou antro de perdição e imoralidade para nossa audiência mais austera, Red Harrington é uma meretriz que “venceu” na vida e ganha seu rico dinheirinho as custas da luxúria alheia.
Tendo um passado brilhante como dançarina de Ballet, viu seu futuro ser arrancado de si quando Butch Cavendish, – por coincidência, o homem que Tonto e o Cavaleiro Solitário estão procurando – decepou sua perna. Red sendo a pessoa visionária que é, não perdeu tempo, e de seu cotoco, construiu uma perna de marfim que na verdade é uma arma de fogo. É uma tristeza que ela apareça tão pouco, enquanto a protagonista do filme, interpretada por Ruth Wilson só nos dá sono com seu personagem todo trabalhado na dama em apuros, sempre precisando ser salva por alguém.
Tendo um passado brilhante como dançarina de Ballet, viu seu futuro ser arrancado de si quando Butch Cavendish, – por coincidência, o homem que Tonto e o Cavaleiro Solitário estão procurando – decepou sua perna. Red sendo a pessoa visionária que é, não perdeu tempo, e de seu cotoco, construiu uma perna de marfim que na verdade é uma arma de fogo. É uma tristeza que ela apareça tão pouco, enquanto a protagonista do filme, interpretada por Ruth Wilson só nos dá sono com seu personagem todo trabalhado na dama em apuros, sempre precisando ser salva por alguém.
O longa metragem se afoga em cenas de ação exageradas e momentos pastelão desnecessários. Nem a química entre Armie Hammer e Johnny Depp apesar de ser óbvia no filme, e eles serem um ótimo duo, foi o suficiente para transformar esse filme com uma ótima produção em um hit.
No final todos ganham sua justiça, os malvados morrem, os mocinhos vencem, e o Cavaleiro Solitário ganha Tonto como seu “ajudante”, mas nunca é explicado como o Comanche vai parar na exposição em que é encontrado no início do filme, o mesmo terminando com Tonto vestindo um terno e andando nas planices do deserto nos créditos finais.
Pode parecer que eu não gostei do filme, e essa impressão é correta, mas ainda aconselho as pessoas a irem assistir esse filme, por mais que a história tenha mais furos que um queijo suíço e que seja quase mais ofensiva do que a interpretação de Mickey Rooney em “Bonequinha de Luxo“, o debate que foi gerado após a estreia do filme sobre a situação dos índios americanos na mídia atual, é um ponto positivo. E existe algumas, porem poucas cenas em que o expectador realmente consegue se emocionar, sem contar que, se você o assistir sem esperar nada de espetacular dele, o filme pode lhe arrancar algumas risadas.
Claro que podemos todos ser muito otimistas e dizer que na verdade o longa metragem de Gore Verbinsky é ótimo, e todos os motivos pelos quais eu não gostei do filme são explicados pelo fato de que ele é narrado por um Tonto idoso, um índio com uma má memória, e uma visão cheia de misticismo sobre sua vida que faz o filme ser o que é. Mas acho que esse argumento é uma resposta preguiçosa e prefiro ir com a premissa que eles estragaram o rolê do filme e me conformar.
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