Sobre pinturas, cinema, homens e mulheres.
A história da arte é cheia de relatos interessantes. Afinal, por trabalharem com algo que é totalmente influenciado pela experiência e percepção humana, não há falta material de sobra da vida de grandes artistas para livros e, claro, filmes.
Este é o caso de “Renoir” (2012). Mas mais do que falar do pintor Pierre-Auguste Renoir (1841-1919), a produção conversa com o próprio meio do cinema e fala também de seu filho, o cineasta Jean Renoir (1894-1979), assim como da musa comum de pai e filho, Andrée Heuschling, mais conhecida como Catherine Hessling (1900-1979).
Na riviera francesa, em 1915, o pintor Pierre-Auguste Renoir (Michel Bouquet) vive isolado, pintando e cuidando de sua saúde debilitada com uma equipe de empregadas e seu filho Coco (Thomas Doret). Quando a modelo Andrée (Christa Theret) chega à sua casa, Renoir se vê com inspiração renovada. Seu filho Jean (Vincent Rottiers), retornando da guerra pouco tempo depois, também se fascina com a moça cheia de vida e ambição. Mas o papel de musa inspiradora da garota não é sem seus altos e baixos, fazendo com que ela lentamente se torne um obstáculo para a harmonia da casa.
Mais do que um documento histórico, “Renoir” busca uma visão mais intimista do pintor, de seu filho, e da musa comum a ambos. Temos todo um núcleo de figuras históricas, mas o principal elemento documental – como a carreira posterior de Jean e Andrée, ou a grandiosidade do passado de Pierre-Auguste – fica subentendido ou resumido. Como as obras impressionistas do próprio Renoir, busca-se muito mais a sensação do que a objetividade.
Por falar de um artista, é impossível que a trama fuja do próprio mundo das artes. Aqui, conseguimos entender muito da visão de Renoir sobre as mulheres, eternas inspirações de seu trabalho, e, seja por explicações do próprio personagem ou subjetivamente, o papel da “musa” é muito explorado. Andrée é o principal motor da história, criando a maior parte dos conflitos, mas principalmente servindo como a inspiração, seja para material de estudo para os quadros do Renoir pai, ou plantando idéias e sonhos no futuro do Renoir filho.
Os comentários sobre arte e quadros são pontuais, subjetivos, mas pertinentes. O que é inesperado, a um primeiro momento, é o comentário sobre o cinema, tanto com a presença de duas figuras histórias (Jean e Andrée/Catherine) quanto por uma excelente fala em que comenta-se que os franceses não deviam fazer cinema – ótimos pontos de ironia considerando o histórico e o fato de tal fala existir em um filme francês. Outro, um tanto quanto acidental, fica no fato que ela é muito mais sonhadora que Jean, mas na carreira no cinema, o sucesso maior foi dele.
Fora da arte, explora-se principalmente a vida familiar dos Renoir, mostrando Pierre-Auguste como um pai distante, de quem os filhos tem pouco conhecimento e respeito, especialmente já que suas indiscrições com suas modelos, no passado, surgem repetidamente como lembranças amargas. A Sra. Renoir, já morta no começo da história, surge apenas em um sonho, mas por todo o filme é assunto, na vida dos filhos e do marido, e os efeitos de suas ações duram muito além de sua morte.
Andrée aqui tem outro papel, atiçando o melhor e o pior de todos os membros da casa, se tornando motivo de ciúmes e brigas, especialmente já que, para as serventes do local, ela é apenas uma garota fútil e pouco confiável, especialmente depois do histórico de infidelidades do pintor. Há várias visões da menina, de modo que até para o público é difícil vê-la de maneira imparcial.
Voltando ao próprio Renoir, sua saúde debilitada é um dos temas recorrentes, mas por vezes ele parece desconectado, esquecido entre outros elementos que o enredo busca mostrar. Ainda que seu reumatismo nas mãos e nos joelhos forcem interações com outros personagens, pouco colaboram para a imagem geral, e o drama individual nem sempre funciona. Parece mais uma tentativa de manter a coerência histórica do que transmitir uma sensação, quase que contradizendo outras abordagens.
O ritmo é arrastado, tanto em duração de cenas quanto em desenvolvimento, mesmo para produções francesas, o suficiente para garantir cochilos para aqueles que não estão preparados. Ficam dúvidas sobre a necessidade desse andamento, especialmente quando a ausência de trilha sonora em boa parte do tempo, ou trilhas leves em piano, não ajudam nem no ânimo e nem na ambientação. Felizmente, na segunda metade, quando já conhecemos os personagens e os principais pontos da trama, tudo caminha melhor.
Visualmente, o filme gosta de trabalhar, ou ao menos indicar a origem de diversos quadros – afinal Andrée está em várias obras famosas de Renoir -, e tenta apostar em cenários bucólicos, mas falta a beleza que só o artista via no mundo. Bem ao gosto do artista, porém, aproveitam-se muitas oportunidades de mostrar as curvas de Andrée e de Madeleine (Solène Rigot) com uma sensualidade que contribui para a história e traz ao público a visão e adoração que Pierre-Auguste tinha sobre as mulheres.
Não há do que reclamar das atuações, e em caracterização o filme tem uma de suas forças. O velho Renoir parece com seus retratos, e semelhanças não faltam para Jean e Andrée – esta, adequadamente, mais pelos quadros do artista do que por suas fotos na sua época de atriz de cinema. Pontos também para guarda-roupas e maquiagem, como os efeitos bem realistas da doença do velho artista.
Uma produção interessante, mas dificilmente será a primeira opção de muitos. Se você se interessa em história da arte, assista sem medo.
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