Um pássaro? Um avião? Não, uma surpresa.
O Super-Homem é um herói já tradicional do cinema. Vários diretores já tentaram levar às telonas o forçudo com sua capa vermelha, com variados níveis de sucesso. Mas entre muitos dos fãs perdurava a opinião que nunca haviam feito um Superman “de verdade”. Alguns diziam que um filme sério seria impossível. Mas eles já deviam saber que para o Super-Homem nada é impossível, e pelas mãos do diretor Zack Snyder (“Watchmen”, “300″) e o produtor Christopher Nolan (responsável pela série mais recente do Batman), as coisas mudaram.
Em minha recente estadia em Los Angeles, tive a oportunidade de ver o que o Homem de Aço tinha a oferecer, antes do lançamento brasileiro. E cheguei a uma conclusão: “Homem de Aço” (“Man of Steel”) é o filme definitivo do Super-Homem.
Aviso: Esta crítica tem conteúdo que alguns podem considerar spoiler, especialmente para quem conhece pouco sobre outras versões da história do Homem de Aço.
A história é bem familiar, mas sempre vale repassar:
Numa galáxia distante, o planeta Krypton está à beira da destruição total, depois que a exploração descontrolada levou à desestabilização de seu núcleo. O caos político se inicia, com uma insurreição feita pelo líder militar General Zod (Michael Shannon). Vendo que seu povo não tem mais salvação, Jor-El (Russell Crowe) rouba um códice contendo a memória dos kryptonianos e o injeta em seu filho, Kal-El, enviando-o junto de sua esposa Lara Lor-Van (Ayelet Zurer) para um planeta onde ele poderá sobreviver, a Terra.
Divulgação
O golpe militar é detido a tempo, mas não antes que Zod assassinasse Jor-El. O militar e seus soldados, como punição, são enviados para uma prisão fora do espaço e tempo, a Zona Fantasma. Kal-El, enquanto isso, chega na terra, onde é adotado por Martha (Diane Lane) e Jonathan Kent (Kevin Costner), ganhando o nome de Clark (quando criança, é interpretado por Dylan Sprayberry e por Cooper Timberline). Exposto à atmosfera e ao sol da Terra, o kryptoniano ainda jovem desenvolve diversas habilidades físicas superiores aos humanos, escondendo-as por anos, fazendo boas ações anonimamente sempre que possível.
Mesmo adulto, Clark (Henry Cavill) não deixa de procurar mais sobre suas origens, mas a descoberta acaba trazendo muito mais do que ele poderia esperar: ao descobrir uma nave Kryptoniana com tecnologia similar à que o trouxe à Terra, o alienígena ganha atenção dos militares norte-americanos e da repórter Lois Lane (Amy Adams). A pior ameaça, porém, não está na Terra: Zod está livre da Zona Fantasma e acaba de localizar Kal-El.
Pareceu muita coisa? Não se preocupe – esta descrição é só o começo do filme, omitindo vários dos detalhes que fazem a história ser muito envolvente. E convenhamos? Com a qualidade do elenco, seria até injusto não mencionar tantos personagens marcantes logo de cara.
Tudo aqui é direto ao ponto. O filme não perde tempo, nada está à toa na história e as explicações tomam a liberdade de serem auto-suficientes. Diferente de algumas produções de Super-Heróis, em especial da Marvel, o filme evita o “fan service” excessivo. O ponto é contar uma história e um ponto-de-vista específico do cinema – o que não quer dizer que os fãs não terão seus pequenos agrados: o filme não pede conhecimento prévio da história do Super-Homem, mas, claro, aqueles que conhecem terão muito mais o que aproveitar. O universo de Clark e companhia está completo – a vila que o rapaz mora com seus pais adotivos é Smallville; Lex Luthor nem é mencionado, mas em Metrópolis, a presença de sua companhia pode ser discretamente sentida. São vários pequenos detalhes, tudo está lá.
Divulgação
Mais do que isso, a história tem um crédito em saber amarrar vários núcleos e pontos-chave sem se perder. Temos, na mesma história, o histórico de Krypton, a infância e juventude de Clark, o conflito com os militares e com Zod, o núcleo de Lois Lane no jornal Planeta Diário (com figuras conhecidas dos quadrinhos, como Perry White, interpretado por Laurence Fishburne), temas religiosos e familiares, com foco na relação de pai e filho de Clark/Kal-El com Jonathan e Jor-El. Isso resulta, claro, em mais de duas horas de filme, mas nem vemos passar.
“Homem de Aço”, em essência, é um filme sobre a condição humana. Kal-El/Clark, o Super-Homem, é repetidamente colocado como um tipo de deus em meio aos mortais. Indo além apenas das discussões dos personagens da produção, o diretor soube trabalhar muito bem muito da simbologia cristã, seja com falas que o comparam diretamente a um deus, à uma ótima cena de Clark em uma igreja ou no detalhe que Superman começa sua vida heróica, salvando a humanidade, aos 33 anos, idade em que Jesus teria morrido para… isso mesmo, salvar a humanidade.
Ainda na temática do “ser humano”, muito da discussão gira em torno da situação de Clark como alienígena. Além de temas principais da história do filme, notamos o quanto isso afetou seu desenvolvimento como personagem. Flashbacks mostram, por exemplo, como o herói teve problemas para controlar seus poderes quando era criança, e como isso lhe trazia problemas. Mesmo adulto, vemos as dificuldades que a condição de “alien” lhe traz. Raramente tivemos a oportunidade de ver um Super-Homem tão fragilizado quanto nesta versão, e essa é, de longe, uma das melhores representações de super-poderes que o cinema já viu.
Divulgação
Outra palavra-chave é “escolha”. Em Krypton, aprendemos que todos, por manipulação genética, são gerados para designarem certas funções. Kal-El foge dessa regra, tendo a liberdade de escolher quem quer ser e o que quer fazer. Isso pesa muito no desenvolvimento de seu personagem, em especial na moralidade que aprende, quando jovem, com os Kent, e isso perdura por todas suas decisões. O vilão Zod, por outro lado, funciona como o lado oposto da moeda – ele é foi criado para ser um militar selvagem e agressivo, cujo único propósito de vida é proteger a honra de Krypton. Além de garantir muito da profundidade do personagem, isso gera um vilão coerente, diferente de muito do histórico de antagonistas do Super-Homem e de outros heróis.
O Superman que vemos aqui passa longe do infalível que estamos acostumados. Ele está despreparado perante a um inimigo muito mais forte, a até mesmo quando se dá bem, não é sem seus prejuízos (basta olhar o cenário das lutas). Muito mais do que em outras produções do Super, temos situações em que parece não haver esperança. É claro, sempre sabemos que o bem vai triunfar, mas isso não impede que fiquemos na ponta da cadeira, esperando para ver como o herói (e a humanidade) vão sair dessa.
Tudo isso, claro, não seria nada sem uma atuação impecável por toda a equipe, em especial Henry Cavill e suas versões mirim, Dylan Sprayberry e Cooper Timberline. O trio cria um ótimo Kal-El/Clark, além de já parecerem naturalmente com o original dos quadrinhos. A equipe de produção também teve o cuidado de fugir de algumas marcas mais ridículas do herói, como a famosa “cueca” por cima da roupa. Tudo está mais crível, e até o “S” do uniforme tem uma explicação bem mais plausível.
Os outros personagens tem muita importância e profunidade inesperada. Além de Zod, mencionado anteriormente, Jor-El e os Kent ganham o coração da platéia por vários motivos. Lois Lane, ainda que seja uma personagem interessante e conte com a ótima atuação de Amy Adams, não foge de alguns clichês do gênero e da própria personagem. O mesmo pode ser dito dos personagens do núcleo militar, mas nunca há um exagero excessivo, de modo que não chegam a incomodar.
Divulgação
Visualmente, o filme também é uma pérola, seja com efeitos visuais de primeira ou mesmo com um ótimo trabalho de câmera. O 3D funciona, ainda que não seja vital, e parece estar disponível apenas para seguir com a tendência atual de lançar produções do tipo com esse efeito. Na trilha sonora, Hans Zimmer acompanha novamente Christopher Nolan, como em suas obras recentes, e dá muito peso dramático à história do Homem de Aço com uma produção musical fantástica.
Não existem contra-indicações para “Homem de Aço”. É muito difícil não encontrar pelo menos uma coisa que agrade neste longa que está dominando as bilheterias norte-americanas, e que já tem sequência confirmada, aparentemente para 2014. Assim que chegar aos nossos cinemas, garanta seu ingresso.
Ah, a propósito – não existe nenhuma cena depois dos créditos, então você não precisa esperar depois das letrinhas subirem, ok?